Discurso da Encarregada de Negócios, Embaixadora Anne Lammila na ocasião do Dia da Independência

A Encarregada de Negócios a.i.n Embaixadora Anne Lammila discursou no passado dia 3 de Dezembro na ocaisão das festividades do dia da Independência. Junto publicamos discurso.

Discurso do Dia da Independência 2025

Perguntam-me muitas vezes por que a celebração do dia nacional da Finlândia é tão solene. Por que não festejamos com a mesma alegria que a Noruega no Syttende Mai ou os Países Baixos no Koningsdag? Para compreender isso, é preciso conhecer a história.

Voltemos ao ano de 1917. Surgia na Finlândia a ideia da independência. Durante mais de seis
séculos, tínhamos sido a província oriental da Suécia. Na disputa entre duas grandes potências
— a Suécia e a Rússia — a Suécia foi derrotada, e a Finlândia passou a integrar o Império Russo
em 1809.

A Russia começou a fervilar em 1917. Na Revolução de Fevereiro, o czar Nicolau II foi forçado a abdicar do trono e a Rússia passou a ser governada por um governo provisório. Também na
Finlândia, um dos países mais pobres da Europa, reinava agitação. A sociedade estava dividida.


Havia grandes proprietários de terras e cidadãos abastados, incluindo membros do clero, que tinham alcançado prosperidade através da educação ou de outras formas. A maior parte da
população, porém, vivia na pobreza — trabalhadores industriais mal pagos em condições desumanas, ou camponeses sem terra que trabalhavam no campo. Os cidadãos que se identificavam com a esquerda criaram o seu próprio exército, e o mesmo aconteceu no campo da direita com a formação das Guardas Civis (suojeluskunnat). Os preços subiam, parte da
população sofria de fome e desemprego. Foi declarada uma greve geral.


Quando o Império Russo caiu definitivamente e os bolcheviques tomaram o poder na chamada Revolução de Outubro, a Finlândia aproveitou a oportunidade e declarou a sua independência
no dia 6 de dezembro de 1917. Mas nada estava ainda garantido. Nenhum país do mundo queria reconhecer a independência finlandesa antes que o governo da Rússia Soviética o fizesse. E aqui volto à razão pela qual o nosso Dia da Independência não é uma festa alegre. A delegação do Senado da Finlândia teve de viajar a Petrogrado para solicitar o reconhecimento oficial. O dia 31 de janeiro foi sombrio. O dia transformou-se em noite. A escuridão a kair. A  delegação ainda esperava, numa escada fria e austera, para ser recebida no gabinete de Vladimir Lenin, chefe do Conselho dos Comissários do Povo. Havia frio, havia fome. Só pouco antes da meia-noite Lenin e os outros comissários consentiram em assinar o documento de reconhecimento da independência.

Para Lenin, o reconhecimento era taticamente útil: poderia facilitar o triunfo da revolução socialista também na Finlândia. Os bolcheviques esperavam que uma Finlândia independente pudesse, mais tarde, unir-se à Rússia Soviética.
O início da nossa independência foi difícil. Logo no ano seguinte, em 1918, a nação dividida mergulhou numa guerra civil entre os Vermelhos — que defendiam uma união com a União
Soviética — e os Brancos, que defendiam a independência com o apoio da Alemanha. Mais tarde, a Finlândia lutaria novamente pela sua liberdade contra a União Soviética na Guerra de
Inverno de 1939–40 e na Guerra de Continuação, de 1941 a 1944. Desta vez, a nação estava unida contra um inimigo comum. Permanecemos fortes, embora tenhamos perdido 11% do
nosso território e tivemos de evacuar 10% da população das áreas cedidas. Nos conflitos, morreram 2,5% dos nossos cidadãos.
A independência é, portanto, algo profundamente valioso para os finlandeses. Os sacrifícios, as memórias e os soldados caídos estão sempre presentes nas comemorações. Por isso o nosso
dia é solene.

Hoje, a nossa situação é diferente. A Finlândia foi eleita o país mais feliz do mundo por oito vezes. Esta felicidade não é só riso e sorrisos. Somos felizes — ou talvez mais corretamente, satisfeitos — porque o nosso país funciona bem. Pagamos impostos de bom grado porque sabemos que recebemos um retorno concreto. Na Finlândia, compreendemos que quando todos, independentemente da sua origem, têm as mesmas  oportunidades de educação, toda a sociedade beneficia. Investimos em segurança, sim, mas não apenas nisso. Educação,
igualdade, liberdade individual, confiança nas instituições e na democracia — tudo isto explica a nossa felicidade e resiliência.

Temos hoje motivos para celebrar o 108.º aniversário da Finlândia? O cenário global é pesado, a incerteza económica desanima muitos. Os tempos são difíceis, mas ainda assim há motivos para comemorar. Precisamos reencontrar a confiança e o entusiasmo. Aqui podemos inspirarnos em Portugal. Aqui o desemprego está baixo e a economia em crescimento. A dívida pública está a diminuir.
Há também sinais de esperança neste outono sombrio. Em Gaza, foi dado um passo significativo rumo à paz. Israel e o Hamas iniciaram a implementação da primeira fase de um
acordo. Mas este é apenas o começo. Apelamos a ambas as partes: cumpram o acordo, respeitem o direito internacional e permitam a entrada da ajuda humanitária.


Na Ucrânia continua, pelo quarto ano, a brutal guerra de agressão perpetrada pela Rússia. É positivo que se procure alcançar a paz. Mas isso não será possível se o país agredido for excluído das negociações. Pela nossa história e experiência, compreendemos profundamente o sofrimento do povo ucraniano. Eles lutam não só pela sua liberdade, mas também pela da Europa, e pela ordem internacional baseada em regras e pela democracia contra a tirania. A Rússia tenta quebrar o espírito de resistência do povo ucraniano. Não o conseguirá. A Europa, a NATO e a maioria dos Estados-membros da ONU apoiam a Ucrânia.

A Finlândia é hoje um ator muito diferente do que era em 1917 ou no tempo das guerras contra a União Soviética. Somos membros da União Europeia há mais de 30 anos. O apoio à adesão
continua elevado porque sentimos claramente os seus benefícios. Somos membros da NATO há mais de dois anos. Já não estamos sozinhos a defender os nossos 1.300 quilómetros de
fronteira oriental.

Mantemos também uma excelente relação com Portugal, que, como a Finlândia, se situa na periferia da Europa — nós no leste, Portugal no oeste. Cooperamos amplamente em várias
áreas, especialmente na gestão florestal e na prevenção de incêndios, na área da economia digital com a Nokia o segundo maior empregador no seu setor com 3.500 funcionários.
Estamos também a desenvolver a cooperação no setor da defesa. Em política externa e de segurança, encontramo-nos quase sempre em sintonia.

Para mim, o outono passado em Portugal foi enriquecedor. Vim para resolver uma crise que surgira na embaixada. Tive a oportunidade de regressar aos cenários da minha juventude. Em
1979, tive a alegria de participar num acampamento de escuteiros católicos em Leiria e de conhecer escuteiros portugueses. É maravilhoso poder reencontrar Blasco e Rui — também
eles estão aqui hoje! No outono de 1982, passei uma temporada em Lisboa como estagiário na Rodoviaria Nacional.


O meu sincero agradecimento à equipa — fui muito bem recebido. Agradeço profundamente às autoridades portuguesas, em especial ao chefe do Protocolo, Excelentissimo Francisco Vaz
Patto, que tive a honra de conhecer na minha primeira noite aqui, em julho.


Obrigado aos colegas! Obrigado, Portugal! Obrigado, querida Lisboa, minha casa temporária,
mas tão amada.
Regresso à Finlândia no dia 20 de dezembro — primeiro de férias e depois para a reforma. O
meu sucessor, Christian Lindholm, iniciará funções no início do ano. E sim, desta vez o embaixador é um homem — depois de cinco embaixadoras.


Para terminar:
Hyvää itsenäisyyspäivää!
Feliz Dia da Independência!
Viva a Finlândia!
Viva Portugal!
Viva a cooperação entre a Finlândia e Portugal!
KIPPIS! SAUDE!

Encarregada de Negócios a.i., Embaixadora Anne Lammila